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Homenagem a Eugénio Fonseca

Publicado em: 17/08/2026 00:32

1. O meu Géninho

Com a alma enrugada pela tua partida sem regresso, aqui estou, às seis da tarde deste dia 12 de agosto, quarta-feira, dia do eclipse solar que há de chegar daqui a hora e meia. Quiçá, hoje, o céu esteja mais brilhante e em festa.

Há notícias que nos tiram o chão que pisamos e nos fazem sobrevoar o vazio, com a dor que nos vai invadindo.

A tua morte, meu Géninho.

Havia um texto que te escrevi a celebrar o teu aniversário, no ano passado, e não o encontro. Queria continuar o que nele te disse, mas, de tão perdida, não o vejo.

Lembrar o Géninho é lembrar o seu exemplo, a história de vida que coconstruiu com muitos dos seus maiores significantes.

Foste um cristão católico autêntico. A tua vida foi expressão do teu compromisso com a humanidade dos Evangelhos e da luta por uma Igreja de portas abertas, que desde menino praticaste.

Nos tempos que correm, no mundo inteiro, há falas a mais sobre os valores cristãos e ações cristãs a menos.

A racionalidade utilitária, ligada à moral de coação, regida pela lógica do “eu ganho, tu perdes; tu perdes, eu ganho” e pelo castigo que domina a lei do mais forte — de Estados, instituições e pessoas individuais — vai deixando uma humanidade descosida, e farisaica onde as palavras sobre os valores cristãos tantas vezes não encontram correspondência nas ações.

Géninho, cerziste a tua vida com linhas consistentes, colocando frente a frente, no mesmo estatuto de igualdade, o teu eu e o outro, esse outro que sempre fez e faz parte de ti. Ou, frente a frente, o teu eu e os outros: entre dois, entre muitos, sobretudo os mais desfavorecidos, os esquecidos e os excluídos.

Muitos embelezam a caridade para afagar a culpa. Tu não brindavas essa caridadezinha. A tua não era a caridade assistencial que dá para sossegar consciências, afagar as culpas dos opressores ou tornar suportável a injustiça. A caridade não era uma caridade que olha o outro de cima para baixo, que dá sem escutar, que oferece sem reconhecer a dignidade de quem recebe. A tua era uma caridade cooperante e libertadora: uma caridade que se faz com o outro e não pelo outro; que escuta antes de agir, que reconhece a pessoa antes da necessidade, que dá voz a quem foi silenciado e procura criar condições para que cada um possa recuperar a sua autonomia, a sua dignidade e a sua liberdade.

Não se tratava apenas de dar pão a quem tinha fome, mas de perguntar por que razão havia fome. Não apenas de visitar o preso, mas de olhar para aquilo que o tinha levado até ali. Não apenas de amparar o excluído, mas de questionar a sociedade que o excluía.

Era esta a diferença. A caridade não servia para tranquilizar quem tinha mais. Servia para transformar relações, combater a injustiça e construir comunidade.

Nunca foste um cristão de fachada.

Contra a lógica mercantil do lucro fácil, estiveste sempre do lado certo da história: do lado dos pobres, dos famintos, dos trabalhadores, dos desempregados, dos excluídos de tudo e de todos, dos fragilizados, dos esquecidos.

Dando voz a quem não era escutado, tornaste-te um embaixador da esperança.

Praticaste, com simplicidade, tenacidade e frontalidade, o Evangelho da justiça para lá das portas da Igreja e nunca, por nunca, deixaste de revelar a fome e a miséria que permaneciam em Setúbal e em Portugal, quando estiveste à frente da Cáritas.

Afrontaste os poderes políticos instituídos na governação e aqueles que se diziam católicos mas que, no exercício do poder, negavam os valores da fé que proclamavam, ignorando ou deturpando o que lhes dizias.

2. Caridade cooperante e libertadora

Meu Géninho, como ainda ontem te saudava, foste bafejado por práticas consciencializadoras do que é ser cristão católico. Umas vieram da vivência em casa dos teus pais, mas também dos escuteiros. Foste meu lobito da Alcateia da Igreja de São Sebastião, onde fui Akelá. Aí, meu pai, João Sacristão, ensinou-te a ajudar à missa e a preparar os paramentos e o altar. Foste membro da primeira Conferência de Jovens Vicentinos que o Ti João criou que, semanalmente, davam apoio aos pobres das periferias excluídas da cidade de Setúbal, fazendo o que era necessário e visitando os presos na cadeia.

Famílias, vizinhos, amigos, escuteiros, Igreja — em permanente interação com alegria e mãos cuidadoras, de sal e lágrimas contidas. Tão simples tudo. E tão forte a tua presença na vida dos outros.

Cresceste com a comunidade piscatória dos murtoseiros-setubalenses de que fazemos parte — somos das Fontainhas e do Bairro Santos Nicolau — ainda há poucos meses, com o teu envolvimento, ajudaste a reunir os meninos e meninas dos bairros, hoje de cabelo grisalho. Sorrisos de orelha a orelha, alegria e histórias sempre por tricotar -contar encheram aqueles almoços de confraternização.

Desde menino, o teu carácter foi inspirado pelo cristianismo católico. O Deus castigador, que alguns padres, na época, insistiam em nos fazer temer, foi interpelado pelo amor e pelo perdão.

A moral da cooperação domina os Evangelhos, com o que ela implica de liberdade, escolha, responsabilidade e compromisso.

Como podia um Deus Pai ser medonho, se Jesus era tão carinhoso e amoroso? E como é que havia pessoas boas que não acreditavam em Deus e pessoas tão ruins que se diziam católicas e cristãs?

Os valores cristãos são de alegria e celebração da humanidade, nada têm a ver com o medo.

3. Vida sem ostentação

As coisas são belas na sua simplicidade. Raramente precisam de grandes adornos.

Nunca te serviste dos lugares de poder que ocupaste. Fosse na Cáritas Diocesana, na Cáritas Nacional, na tua atividade docente com os jovens, como membro de órgãos dirigentes do Instituto Politécnico de Setúbal, no Conselho Consultivo do ISCTE ou, ultimamente, na Federação Portuguesa do Voluntariado.

Também no teu quotidiano familiar, com a tua querida esposa, os teus dois filhos e a tua neta, que mimavas de carinhos.

A comunidade é uma TRAMA que sustenta a todos. Somos uma totalidade que nos completa. A teia das relações que estabelecias, mantinhas e desenvolvias com os outros era, para ti, uma construção coletiva, comunitária, cristã. E era uma inquietação permanente: estar presente e procurar resolver os problemas dos marginalizados.

Sempre tiveste consciência de que havia situações que não podemos evitar, mas escolher o bem é o poder ser. Ser. Todo o Ser que pode SER.

Os valores cristãos faziam parte da tua existência concreta e do teu quotidiano. Onde quer que estivesses e com quem quer que estivesses, foram sempre a linha consistente com que cerziste a tua existência com o mundo.

“Nós somos a possibilidade do erro.”  Quantas vezes conversámos sobre esta frase, sobre o que faz parte da nossa condição  humana – o de sermos, também, a possibilidade do erro. É nessa possibilidade que podemos produzir um desalinhamento.

A questão central é a escolha do que queremos, podemos e devemos fazer para mantermos a coerência prática com os valores cristãos, que envolvem a ética da liberdade e a moral da cooperação, nos nossos comportamentos e nas escolhas que fazemos e nas que não fazemos.

Os Evangelhos, que diariamente lias pela manhã e partilhavas com a tua reflexão, eram uma luz que iluminava as sombras das injustiças, incluindo aquelas de que foste alvo.

“Perdoai-lhes, Senhor, porque não sabem o que fazem.”

A autenticidade e o exemplo de Jesus Cristo foram sempre a marca da tua escolha. Uma escolha que honrou e muito contribuiu para um mundo de humanidade.

Tal como Jesus, nunca te rebaixaste e sempre perdoaste. Eu sei como sofreste com isso. Mas tu sabias como Jesus Cristo, sabendo-se protegido, recusou a ajuda divina e mostrou-nos que a humanidade era possível. Perdoou os discípulos e os amigos que o renegaram. Perdoou o amigo que o atraiçoou. Perdoou quem o martirizou e matou. E foi implacável contra os fariseus.

Assim foi também o caminho da tua existência: uma vida de entrega aos outros e ao bem comum.

E é precisamente aqui que a tua vida deixa de ser apenas uma história pessoal.

A simplicidade com que viveste, a coerência entre aquilo em que acreditavas e aquilo que fazias, a forma como te relacionavas com os outros e o modo como assumias as tuas escolhas foram construindo uma ideia de comunidade, de Igreja  de portas abertas e de humanidade. Uma ideia que não guardaste para ti: partilhaste-a, discutiste-a, viveste-a e procuraste transformá-la em ação.

É desse caminho vivido que nasce o legado que deixaste.

4. Lembrar o meu Géninho

Lembrar o meu Géninho é, por isso, falar de um cristão católico de verdade, autêntico, irreverente.

É falar de intercompreensão. É falar de escuta ativa de si próprio e dos outros. É conversar, questionar, procurar caminhos e soluções para os problemas a resolver, em nome do bem comum e da justiça para os mais pobres, os desfavorecidos e os excluídos.

É lembrar como ele foi autêntico em casa, na rua, na escola, no trabalho, no recreio, no lazer, no jogo de futebol do seu Vitória e na Igreja.

Os valores dos Evangelhos formam uma humanidade universal. Na sua praxis inclusiva, emerge a cooperação entre diferentes confissões religiosas e também com ateus e agnósticos.

Lembrar o meu Géninho é ter presente que a ação social, por mais pequena que seja, pode ser um passo firme para contrariar o erro humano. Pode ser um pequeno passo no processo de conquista da liberdade, da justiça e da intercompreensão. Porque a humanidade é o lugar onde podemos construir um mundo melhor. É também o lugar das escolhas que fazemos e das ações que delas resultam: escolhas que podem gerar o bem e contrariar o mal.

A vida do meu Géninho demonstra e confirma o que pode ser e como se pode ser e existir, no mundo de vida com os outros, um cristão e católico.

Sobretudo em tempos em que há tanto para construir e mudar. E talvez seja por isso que lembrar o Géninho não possa ficar apenas no exercício da memória.

Lembrá-lo é também reconhecer as ideias, as inquietações e os caminhos que connosco partilhou e que continuam a interpelar-nos. É olhar para aquilo que ele fez e perguntar o que fazemos nós com aquilo que recebemos.

5. Fragmentos de um legado que reuniu um grupo de cristãos, católicos, ateus e agnósticos refletindo sobre a sinolidade

Contributos para uma Igreja de Saída – De Portas Abertas – Caminhar em conjunto: contributos

Uma Igreja cidadã envolve o reconhecimento interno da violação dos valores do Evangelho. Neste sentido, importa que a Igreja aceite, num plano de igualdade, a multiplicidade de orientações sexuais e de géneros que fazem parte da humanidade, tanto ao nível discursivo como nos diferentes corpos que a constituem.

O mesmo se deverá dizer em relação a todas as diferenças racializadas por razões de ordem biológica e étnico-cultural que, sendo socialmente percebidas a partir de uma norma cultural, têm sido também secularmente subalternizadas.

Uma Igreja cidadã previne esses abusos, nomeadamente através da alteração dos modos e conteúdos da formação eclesiástica, repensando o internato nos Seminários, abrindo a formação a homens e mulheres. E repensa, também, a obrigatoriedade do celibato.

É uma Igreja de portas abertas e em saída, democrática, construída com a voz de todas e de todos, ao serviço dos valores do Evangelho e da coconstução de Humanidade.

É uma Igreja que traz as Margens para o Centroe transforma o encontro em caminho de libertação e paz

A caminhada sinodal que fizemos contigo Géninho deu-nos a oportunidade de cruzarmos esse espanto de uma Igreja sinodal com a nossa vontade comum de contribuir para um mundo de humanidade. Nas nossas diversas experiências individuais, partilhámos a inquietação perante a imperfeição das instituições e da sociedade em que vivemos.

Assim, dentro e fora da Igreja Católica, há que reforçar o respeito pela liberdade e pela diversidade, na partilha da condição humana comum. Dentro e fora da Igreja Católica, há que recusar um mundo desumanizado e regido por uma ética utilitarista que ameace a dignidade comum. Dentro e fora da Igreja Católica, há que construir uma sociedade mais aberta às margens, capaz de as trazer para o centro e de ver no seu sofrimento e na sua estigmatização o fermento da mudança necessária para sociedades mais livres, dignas e felizes.

Uma Igreja Católica que se abra a estes desafios, que ouça as companheiras e os companheiros de jornada e acolha e integre aqueles que excluiu, marginalizou ou não procurou, fará parte de um mundo melhor. Será fermento de uma mudança social, cultural e espiritual que poderá melhorar o mundo para além da sua própria mudança interior.

Até sempre, meu Géninho

Meu Géninho, foste cerzindo a tua vida com os fios da fé, da amizade, da justiça, da liberdade, da escuta e do cuidado pelos outros. Foste fazendo da tua vida uma trama onde cabiam muitos, sobretudo aqueles que tantas vezes ficavam nas margens. Hoje, a tua partida deixa um rasgão nessa trama. Mas ficam os fios que deixaste nas nossas mãos, nas nossas memórias, nas causas que abraçaste e nas pessoas que ajudaste a acreditar que outro mundo era possível. Fica o teu exemplo. Fica a tua voz. Fica a tua inquietação. Fica o teu perdoar. Fica a tua esperança. E fica, meu Géninho, a responsabilidade de continuarmos a cerzir, com esses fios, a humanidade que tanto  ajudaste a construir.

Hoje, neste dia de eclipse, talvez o céu escureça por instantes. Mas eu quero acreditar que há luzes que não se apagam.

A tua é uma delas.

Abracinho Géninho

Conceição Lopes

Fonte: Website oficial do Município de Setúbal

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